Ganham espaço pesquisadores que questionam os “excessos médicos”, como exames pedidos sem necessidade ou medicamentos prescritos por tempo prolongado.

Anos atrás, a revista científica britânica BMJ – uma das publicações médicas mais importantes do mundo – publicou um artigo questionando a forma como os médicos prescrevem antibióticos . Tradicionalmente, as prescrições são feitas em ciclos de sete dias. Se o paciente aparenta sofrer de uma infecção particularmente resistente, ou se não tiver apresentado melhoras depois de uma semana, o remédio é mantido por outros sete.

De acordo com o professor Martin Llewelyn, da Escola de Medicina da Universidade de Sussex, essa recomendação, empregada desde os anos 1940, não faz sentido. Autor do artigo da BMJ, Llewelyn analisara uma série de estudos sobre a eficiência de antibióticos. Concluíra que o melhor a se fazer é acompanhar a evolução do paciente e manter o remédio somente pelo tempo em que durarem os sintomas. Não importa se por três, sete dias ou oito dias.

Na ocasião, uma questão em especial me intrigou — como, afinal, haviam surgido os tais ciclos de sete dias, que há décadas orientam o trabalho de médicos no mundo inteiro? “Eles surgiram pelo hábito”, me explicou o médico Lucas Zambon, diretor científico do Choosing Wysely Brasil, um movimento que advoga pelo uso racional da medicina. “Essa duração, de sete ou 14 dias, foi estabelecida ainda nos anos 1940. E não se baseava em estudos que diziam que tratar por sete dias era melhor que tratar por seis ou oito” , me disse ele, para minha surpresa.

Não é assim apenas com os antibióticos. Diversas práticas consagradas na medicina se firmaram, aparentemente, por mera repetição: “Muito do que fazemos como médicos acontece simplesmente porque ‘sempre fizemos desse jeito’”, escreveu o médico Abraar Karan na última edição da BMJ (a mesma revista científica que, anos atrás, publicou o artigo de Llewelyn).

O artigo de Karan, intitulado “Fazendo  coisas sem motivo no hospital” questiona justamente o “hábito” que governa decisões que, num mundo ideal, deveriam ser baseadas em ciência. Segundo ele, há exames feitos sem motivo, remédios prescritos por mais tempo do que o necessário, dietas restritivas recomendadas a pacientes para os quais elas não trarão benefícios.

Para Karan, em muitas situações os médicos são influenciados pelo “efeito default”: fazem o que fazem porque é essa a conduta padrão. Ele não entra na questão, mas arrisco dizer que o mesmo fenômeno influencia também a conduta de pacientes: há casos em que uma anamnese cuidadosa é suficiente para que se faça um diagnóstico correto. Mesmo assim, há quem saia desapontado de uma consulta médica que não resultou num pedido de exames.

Esses “maus hábitos” trazem prejuízos. Financeiros, porque exames e medicamentos têm custos. E potenciais prejuízos à saúde dos pacientes – um exame feito sem necessidade expõe a pessoa a riscos ou, no mínimo, a desconfortos evitáveis: “Exames de sangue muito frequentes podem levar a anemia iatrogênica (aquela provocada por um tratamento médico). Checar os sinais vitais de um paciente estável, no meio da noite, interrompe o sono, e pode induzir a delírios”, escreveu Karan. “Os médicos deveriam começar a questionar, com maior frequência, condutas que fazem por reflexo”, disse.

A mudança cobrada por Karan parece estar em curso. Já há alguns anos, a BMJ publica artigos semelhantes ao dele, debatendo o uso inadequado de exames ou de práticas que não se baseiam em evidências científicas sólidas. Segundo os editores da revista, o objetivo é “combater todas as formas de excesso na medicina”. E ganham espaço organizações como a Choosing Wisely, de Zambon. É um debate importante. Com ele, ganham médicos e pacientes.

Fonte: Redação Panorama Farmacêutico

Fonte: panoramafarmaceutico.com.br/2019/03/07/os-maus-habitos-da-medicina