Há também uma reação química desencadeada por situações de estresse que culmina na vontade de comer comidas gordas. O processo ainda não é bem compreendido pela medicina, mas há algumas teorias.

 

Uma delas é de que a pressão no trabalho, a discussão com o parceiro ou o problema do filho na escola são situações desconfortáveis que, no cérebro, são interpretadas como ameaça. Sobem os níveis de cortisol, um hormônio útil em situações de fuga ou de luta por aumentar os batimentos cardíacos, para o oxigênio chegar mais rápido aos músculos e ao cérebro. Só que outra consequência é tornar o corpo resistente à insulina, um hormônio que funciona como “porteiro” ao regular a entrada de glicose (alimento) para dentro das células.

 

Uma vez que as células estão resistentes à insulina, o corpo fabrica mais desse hormônio para compensar. E, quando há muita insulina no sangue, há fome.

 

– Com muita insulina circulante no sangue, a reação do cérebro para que a glicose não baixe demais é pedir comida. E os alimentos que fornecem mais glicose são carboidratos complexos, presentes em farinha, arroz e batata – explica o médico chefe do setor de endocrinologia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, Rogério Friedman.

 

O estresse também ativa áreas do cérebro relacionadas à recompensa por comer, mostrou um estudo da Universidade de Deakin, na Austrália. Bruno Halpern, médico da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), acrescenta: pessoas que descontam emoções na cozinha, ao verem comida, ativam no cérebro o sistema límbico, ligado às emoções, e o hipotálamo, relacionado a funções básicas como fome e sede.

 

– O indivíduo vê a o alimento e tem uma vontade muito grande de comer. Pessoas obesas demoram mais para desativar essas áreas, então precisam comer mais para atingir prazer. Mas é difícil dizer especificamente qual neurotransmissor é ativado porque não é possível abrir a cabeça da pessoa e medir a quantidade presente – afirma o endocrinologista.

 

Há estudos relatando que a dopamina, neurotransmissor responsável pela sensação de recompensa, costuma ser liberada quando ingerimos comidas com altos teores de açúcar, sal e gordura. Esse efeito seria ainda mais acentuado se, por experiências passadas, você registrou no cérebro que, quando come chocolate, fica feliz. Há até estudos apontando que, em algumas pessoas, o cérebro libera dopamina só de pensar em tranqueiras.

 

O quase irresistível glutamato de sódio

A cereja do bolo é a serotonina, chamada de “neurotransmissor da felicidade”, cujos níveis sobem após a ingestão de chocolate, queijo e carboidratos. Mas não se sabe, aqui, se a produção de serotonina ocorre por causa do alimento ou simplesmente porque associamos que, ao comê-lo, ficaremos felizes.

 

– Alimentos calóricos, doces e com gordura estimulam a liberação de serotonina, que tem ação antidepressiva – diz Rubens Gagliardi, ex-presidente da Academia Brasileira de Neurologia. – Isso também é provocado pela tiramina (uma substância presente em vinhos e cervejas).

 

A indústria alimentícia também faz seu papel: produtos processados e crocantes, como salgadinhos, contêm em sua fórmula glutamato de sódio, um tipo de sal que ressalta o sabor de comidas ao hiperestimular nossas papilas gustativas a ponto de você simplesmente não conseguir comer apenas uma unidade. Mais difícil ainda de dizer não.

 

Vale a ressalva de que nem todas as pessoas descontam emoções no prato. Para muitos, a fome vai embora justamente em momentos de estresse e tristeza. Isso ocorre por várias questões, desde fatores genéticos até uma história de vida na qual a comida não é associada com lembranças positivas. Mas, segundo Bruno Halpern, da SBEM, geralmente, quem é magro emagrece e quem é obeso engorda, a depender do background genético. Ele acrescenta que até o tipo de problema influencia na resposta que teremos.

 

– Existe o estresse que você pode resolver e aquele que você não tem como, porque aguarda a decisão ou avaliação de outra pessoa. Se tenho que resolver, crescem os níveis de noradrenalina e cortisol, meu foco aumenta e como mais porque minhas necessidades calóricas subiram. Mas, se preciso aguardar outra pessoa fazer algo, entram a fome emocional e neurotransmissores como dopamina e serotonina, porque a pessoa usa a comida como forma de se defender contra uma pressão externa – sintetiza.

 

“Existe o estresse que você pode resolver e aquele que você não tem como, porque aguarda a decisão ou avaliação de outra pessoa. Se tenho que resolver, crescem os níveis de noradrenalina e cortisol, meu foco aumenta e como mais porque minhas necessidades calóricas subiram. Mas, se preciso aguardar outra pessoa fazer algo, entram a fome emocional e neurotransmissores como dopamina e serotonina, porque a pessoa usa a comida como forma de se defender contra uma pressão externa.”

 

Bruno Halpern, Médico da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM)

 

Fome emocional não é compulsão alimentar

Não pense que descontar emoções em comida necessariamente significa ter compulsão alimentar, um transtorno previsto no DSM, a bíblia da psiquiatria mundial com todas os doenças mentais catalogados pela medicina.

 

A compulsão alimentar, que pode ser periódica, costuma surgir no fim da adolescência, sobretudo em mulheres. Há fatores genéticos e sintomas específicos: a pessoa come tudo o que está pela frente, não sente saciedade e tem muita culpa após a ingestão. Outros transtornos psiquiátricos podem estar associados, como bipolaridade, ansiedade e depressão. Na fome emocional, come-se um alimento desejado, há uma grande satisfação e a pessoa, por fim, não tem mais vontade de comer.

 

Também é diferente ter o desejo de uma refeição em específico em comparação a descontar a emoção na comida.

 

– Uma coisa é esperar pela lasanha da vó no fim de semana. Outra é comer uma lasanha congelada em casa por uma vontade incontrolável. Quando há impulsividade, o indivíduo está descontando na comida. Senão, é um desejo – salienta a nutricionista Aline Quissak, especialista em psicologia da nutrição e em síndrome metabólica.

 

A conclusão que fica é: se comer é um dos prazeres da vida, aproveite. Mas faça com moderação.

 

Características

Chega de repente, enquanto que a fome normal cresce aos poucos.

Traz o desejo de uma comida específica (em especial, com muitas calorias), e não de alimento qualquer para saciar a fome.

 

Como evitar

O primeiro passo é ter consciência dos gatilhos que acionam a vontade de comer. Repare em quando surge o desejo. É em um momento estressante? Tente controlar a vontade e foque a atenção em outra tarefa.

 

Existem outras formas de proporcionar satisfação e bem-estar que não passam por comida. Exercícios, jogar videogame, ver amigos ou ter relações sexuais são alguns exemplos.

 

Faça refeições equilibradas, com carne (ou outra proteína), salada e carboidratos, como arroz, batata ou massa. Assim, você mantém os níveis de insulina estáveis no sangue por horas e não fica com desespero e de fome em decorrência de baixos níveis de glicemia no sangue.

 

Respire de seis a 10 vezes antes de comer quando você está na fissura por comida. Segundo a nutricionista Aline Quissak, a técnica pode reduzir os níveis de cortisol, o hormônio do estresse.

 

Substitua os ingredientes por opções mais saudáveis. A macarronada pode ser feita com massa integral, o chocolate pode ser 70% cacau, o picolé de fruta pode ser tomado no lugar do sorvete.

 

Pratique exercícios físicos, que combatem a ansiedade, a causa da fome emocional.

 

Coma alimentos ricos em vitamina C, que reduzem os níveis de cortisol no sangue e são anti-inflamatórios. Exemplos: acerola, morango, framboesa e amora.

 

Não fique muitas horas sem comer. Alimente-se de porções pequenas a cada 3 horas, para evitar a queda de glicemia no sangue. Caso contrário, o corpo produzirá muita insulina e você ficará com uma fome gigantesca.

 

Consuma alimentos ricos em triptofano, um precursor da serotonina presente em lentilhas, cereais e derivados do leite.

 

Mastigue devagar. A leptina, o hormônio que envia ao cérebro o aviso de que é preciso parar de comer, demora alguns minutos até fazer efeito.

 

Comer na frente do computador ou da TV tira o foco de atenção do prato, o que faz você comer mais. Sente-se à mesa.

 

O cacau também está associado à queda de cortisol. Mas precisa ser chocolate 70%, e não ao leite, diz Aline.

 

Em última instância, coma um pedaço daquele chocolate ou pizza que você deseja. Só controle a quantidade.

 

Marcel Hartmann

Fonte: Zero Hora

Fonte: panoramafarmaceutico.com.br/2019/03/18/o-turbilhao-hormonal-e-neuronal-que-o-estresse-desencadeia