Solidão, desigualdade social e estado precário de abrigos afetam atendimento a idosos.

ANA PAULA BLOWER

Depois que seu marido morreu, a vida perdeu a graça para Maria Luiza Ribeiro, de 80 anos. Há seis, o médico a aconselhou a buscar um local onde pudesse conversar e conhecer pessoas, e uma amiga a indicou um centro de convivência com atividades perto de casa. Desde que começou a frequentar o local, ela conta que se transformou em outra pessoa. Hoje, faz ali aulas de dança, teatro, entre outras:

— Encontrei algo para preencher o vazio que sentia. Passou a ser um incentivo para sair de casa — conta Maria Luiza, que, além das atividades, faz passeios com amigos que conheceu no local. —Hoje me sinto desejada como companhia.

O local também se tornou referência para o casal pé de valsa Ariuza Natalina Pinheiro, de 80, e Dick da Costa Araujo, de 91, que se conheceu em uma apresentação dela com o pessoal da casa.

— Quando estou na pista, não penso em mais nada — diz Araujo.

Locais como a Casa de Convivência e Lazer para Idosos Carmen Miranda são uma opção para espantar o isolamento e ter um envelhecimento saudável física e emocionalmente. No município do Rio, há sete como essa, administradas pela Secretaria Municipal de Assistência Social e Direitos Humanos, para idosos a partir de 60, e com equipe multidisciplinar.

— A ideia é ter um lugar onde possam deixar os problemas de lado e desenvolver a parte cognitiva, motora e emocional — afirma Mariah Duarte, diretora da Carmen Miranda. — Há casos de abandono familiar e idosos que chegam deprimidos. Com o tempo, fazem amizades, viajam juntos. A grande mudança é a parte psicológica.

Em 2018, o Rio de Janeiro era um dos estados com a maior proporção de idosos —60 anos ou mais —em sua população, correspondendo a 16,8%, segundo o IBGE.

Para o corpo que envelhece, podem ser necessários cuidados mais específicos, como home care. Há ainda casos de idosos que não podem ficar sozinhos em casa, cujas famílias não têm condições, ou que não têm familiares, e que podem optar por uma instituição de longa permanência.

QUESTÃO SOCIAL

Essas opções vêm tomando cada vez mais o debate público no país, visto que o Brasil envelhece a cada ano. Especialistas ressaltam que, em nações desenvolvidas, como França e Japão, a população enriqueceu antes de envelhecer. Por aqui, a desigualdade social pode se refletir nas diferentes formas de envelhecer, como acesso a serviços de saúde e a locais para prática de exercícios.

— O grupo populacional que mais cresce e continuará crescendo no país é o de idosos. Dentro desse grupo, o que mais rapidamente vai crescer é o das pessoas com mais de 80 anos — destaca o médico geriatra Alexandre Kalache. — A demografia tem impacto na sociedade como um todo, não só na economia, mas na forma de viver, nos sistemas públicos de saúde… Seremos, daqui a pouco, um país idoso. E a velocidade desse envelhecimento é um desafio.

QUARTA IDADE

Sócio-diretor da Pleno Saúde, o clínico geral Ricardo Spilborghs afirma que, a partir dos 80 anos, começa a quarta idade, e a forma com chega a essa etapa dependerá de como a pessoa levou avida até aliem termos de cuidados de saúde. Havendo complicações, deves e considerara busca pelo serviço de homecare, cujo custo pode ultrapassar os R$ 20 mil.

As instituições delonga permanência (ILPIs ), conhecidas como asilos, podem ser uma necessidade em alguns casos. No estado do Rio, há quatro públicas, administradas pelo Estado —em Bonsucesso, Guaratiba, Sepetiba e Itaipu (Niterói). As privadas, segundo especialistas, são para poucos: podem custar uma média mensal de R$ 10 mil, chegando a R$20 mil.

—Vemos casas mal adaptadas, que oferecem preços mais baratos, quase um depositário de gente. E tem as ILPIs sérias, construídas para isso, mas que atendem a uma minoria da população, por serem muito caras — compara Spilborghs. — O Brasil é um país dos contrastes: tem desde a excelência até o que não deveria existir.

Kalache indica a existência de um preconceito com relação às ILPIs, que não estão à altura das atividades que deveriam cumprir. Por isso, reforça, é preciso melhorara qualidade desses locais e fortalecer as redes e famílias que podem e querem manter o idoso em sua residência.

— O recado é: amanhã você pode ser idoso. As pessoas não percebem isso — diz Kalache, presidente do Centro Internacional da Longevidade.

Para a fonoaudióloga e gerontóloga Carolina Ruiz, outro desafio é como lidar melhor com essa população:

—O maior desafio é não infantilizar o idosos, mas vinculara eles leis e direitos que não instituam a fragilidade, mas potencializem a qualidade de vida. Enquanto sociedade, precisamos oferecer oportunidades que respeitem a terceira idade —diz Ruiz.

Fonte: O Globo

Fonte: panoramafarmaceutico.com.br/2019/03/07/o-desafio-de-envelhecer-com-saude