O surgimento de bactérias mais resistentes tem a ver com a seleção natural: expostos aos antibióticos, um grupo pequeno de microorganismos mais fortes pode sobreviver e posteriormente se reproduzir. Ao se reproduzirem, essas bactérias aumentam a população resistente

 

Recentemente, a cientista israelense Ada Yonath, ganhadora do Nobel de Química pela descoberta da estrutura e da função do ribossomo – posteriormente, suas equipes revelaram como alguns antibióticos eliminam as bactérias ligando-se aos seus ribossomos e impedindo-os de produzir proteínas – participou de um evento chamado O Futuro do Envelhecimento, em Madri, na Espanha. Ao tratar do assunto em entrevista ao jornal “El País”, ela alertou: “Se não criarmos novos antibióticos, as pessoas morrerão aos 50 ou 60 anos, como antes”. A fala da cientista reforça um alerta que já foi feito pela Organização Mundial de Saúde (OMS): a humanidade estaria próxima do perigo de voltar a morrer por infecções que há muito são tratadas eficientemente com antibióticos, uma vez que os micro-organismos estão cada vez mais resistentes a esses medicamentos. Ada Yonath enfatizou que é preciso que os produtores de medicamentos mudem de postura. “Os laboratórios não querem sintetizar novos antibióticos, porque são muito caros de fabricar, são vendidos muito baratos e são usados durante poucos dias, não como outros tratamentos caros, como os do câncer. E há resistências, porque as bactérias são espertas, encontram o caminho para sobreviver”, disse.

 

O professor Marcio Dias, do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, corrobora a visão de Ada. Ele coordena uma pesquisa que identificou uma enzima capaz de alterar as propriedades de moléculas usadas como antibióticos, fazendo-os superar a resistência das bactérias. “A abordagem que trabalhamos nesse caso específico é pegar as rotas biossintéticas que produzem antibióticos e tentar modificar essa rota, alterá-la adicionando pequenos grupos químicos em regiões específicas e fazendo com que a bactéria patogênica se torne incapaz inativá-lo, e assim acaba morrendo”, explica ele, que também atua em pesquisas que lidam especificamente com a resistência de bactérias causadoras da tuberculose e com o desenvolvimento de novos medicamentos para essa doença. Assim como a Nobel de Química, ele vê desinteresse da indústria farmacêutica em investir nesse tipo de tecnologia. “A gente tenta, faz a nossa parte, que é desenvolver novas moléculas, novas alternativas de terapias. Mas fazer a transposição da academia para a indústria… Principalmente no Brasil, aqui, estamos constantemente buscando apoio, mas há poucos interessados em investir.

 

Na Europa essa associação está mais consolidada”, pontua. A professora da Faculdade de Farmácia da UFMG Mariana Gonzaga acrescenta que o baixo valor mercadológico desses medicamentos está entre as principais causas desse desinteresse. “Hoje, o principal interesse da indústria são tratamentos para o câncer. Temos um ‘gap’ de décadas sem lançamento de antimicrobianos. O número de pessoas afetadas pelas bactérias resistentes ainda é baixo, por isso eles não consideram um investimento rentável, porém, em 20 ou 30 anos isso pode se tornar um grande problema”, afirma.

 

A redução no número de novos antibióticos aprovados nos Estados Unidos nos últimos 30 anos demonstra o baixo interesse da indústria: enquanto na década de 80, 30 novos antibióticos foram aprovados pela Food and Drug Administration (FDA), a agência reguladora norteamericana, somente sete foram registrados entre 2000 e 2009. Agravante. No entanto, a professora não acredita que esse seja o principal problema, mas, sim, a falta de entendimento das pessoas quanto à seriedade do risco que o mau uso dos antibióticos representa, afinal é isso o que torna as bactérias resistentes. “Há uma demanda grande por antibióticos. No Brasil isso é muito cobrado do prescritor, as pessoas vão ao médico com dor de garganta, sinusite e se não saem com prescrição de antibiótico não ficam satisfeitas. Em outros países, como o Canadá e a Nova Zelândia, é o contrário. Se o prescritor indica, as pessoas questionam se precisam mesmo daquilo, justamente porque entendem o raciocínio por trás do desenvolvimento de bactérias resistentes”, pondera.

 

O surgimento de bactérias mais resistentes tem a ver com teoria da seleção natural das espécies elaborada por Charles Darwin (1809- 1882). Expostos aos antibióticos, um grupo pequeno de micro-organismos mais fortes pode sobreviver e posteriormente se reproduzir. Ao se reproduzirem, essas bactérias aumentam a população resistente e aí é que mora o perigo. Mudança no comportamento da população é a chave para o problema. No início do ano, o senador Guaracy Silveira (PSL/TO) apresentou um projeto de lei que propunha que, em localidades onde não haja acesso a serviço de saúde pública regular, os antibióticos pudessem ser adquiridos sem a necessidade de apresentação de receita.

 

Para a professora da Faculdade de Farmácia da UFMG Mariana Gonzaga, uma atitude como essa é o oposto do que precisa ser feito. “Esse tipo de coisa me assusta muito porque sou da época em que a prescrição não era necessária e todos os dias via alguém comprando antibiótico sem precisar. A necessidade da receita é uma ferramenta importante e sua manutenção é o caminho”, afirma. Ela é uma das autoras da Diretriz Nacional para Elaboração de Programa de Gerenciamento do Uso de Antimicrobianos em Serviços de Saúde, lançada em 2017 com o objetivo de orientar os profissionais dos serviços de saúde (hospitais e atenção básica) na elaboração e implementação de programas de gerenciamento do uso desses medicamentos. Mais do que isso, é preciso que a população entenda que antibióticos também podem fazer mal. “Além de viabilizar a criação de resistência entre os micro-organismos, o uso equivocado interfere diretamente no equilíbrio do corpo, que tem mais bactérias do que células. Ao tomar o antibiótico sem precisar, a pessoa pode matar seres que são benéficos pra ela. Por isso, há casos, por exemplo, de crianças que tratam dor de garganta com esses medicamentos e acabam desenvolvendo diarreia, pois interferem nas bactérias do intestino”, explica.

 

O farmacêutico Bruno de Oliveira Bicalho trabalha em uma drogaria de Belo Horizonte e conta que diariamente ouve pessoas dizendo que conseguem adquirir os medicamentos sem prescrição quando querem. “Também é comum eu ouvir relatos sobre o uso de sobras de outros tratamentos, seja deles mesmos ou de terceiros. Esse uso inadequado pode até mascarar os sintomas por um tempo, mas vai fazer as bactérias fortes serem selecionadas e a infecção pode voltar muito mais intensa”, observa.

 

Prescrição adequada.

A professora Mariana Gonzaga também pontua a necessidade de educação continuada dos prescritor, para garantir que os melhores medicamentos estão sendo recomendados para cada uma das infecções. Ela cita o caso das quinolonas, grupo de antibióticos que geralmente terminam com o sufixo “xacino” (como ciprofloxacino, levofloxacino, norfloxacino). “São relativamente novos, começaram a ser comercializados no Brasil na década de 90, há muitos profissionais que têm o hábito de prescrevê-los. Mas nos últimos quatro anos foram descobertos problemas com eles, inclusive relacionados à seleção de bactérias resistentes, mas também a quadros como rompimento do tendão de Aquiles, da artéria aorta e até paralisia de membros”, relata. De acordo com ela, é preciso promover educação continuada dos prescritores porque na prática diária é mesmo difícil acompanhar a informação sobre medicamentos, que muda muito rápido. “A gente sempre fala da população, mas há muitos profissionais desatualizados – médicos, farmacêuticos, enfermeiros. Toda a equipe precisa estar antenada, porque, muitas vezes, não é o médico quem vai conscientizar o paciente, mas o agente de saúde que acompanha a família. Por isso é importante que não haja monopólio da informação”, conclui.

 

Pesquisa busca remover antibióticos do esgoto

Quando a dose de antibióticos dada aos pacientes em tratamento é superior à concentração absorvida pelo organismo, os medicamentos são excretados e acabam compondo o esgoto doméstico. Se isso acontece, o material vai parar nas estações de tratamento, onde, muitas vezes, são usadas bactérias para remoção da matéria orgânica presente no esgoto – o que cria ambiente propício para a ocorrência de microorganismos resistentes a antibióticos, que apresentam maiores taxas de sobrevivência e reprodução do que as não resistentes. Por conta disso, um estudo conduzido pelo Grupo de Pesquisa em Aplicações Ambientais de Processos Oxidativos Avançados, do Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental da UFMG, busca métodos mais eficazes e de baixo custo, baseados na luz solar e na tecnologia de LED, por exemplo, para a retirada de antibióticos e bactérias resistentes a esses antibióticos após o tratamento biológico do esgoto domiciliar. “Atualmente, os estudos desenvolvidos nessa linha são incipientes. Considerando a urgência de métodos eficazes no combate à resistência antimicrobiana, o desenvolvimento do projeto contribuirá para direcionar as ações a serem tomadas para garantir o tratamento adequado do esgoto doméstico, evitando a contaminação ambiental”, explica a coordenadora do projeto, professora Camila Amorim. Outras contaminações. Ela explica que despejo de antibióticos no ambiente ocorre não apenas pelo lançamento do esgoto doméstico, mas está relacionado também aos resíduos vinculados à criação intensiva de animais (suínos, bovinos, aves, peixe e camarão). “Embora o emprego de antibióticos para a promoção de crescimento animal já tenha sido reduzido em países desenvolvidos, o papel do consumidor como agente de mudança – por meio da opção por alimentos livres de antibióticos – é essencial”, acrescenta, pontuando que comprovada a eficácia do tratamento na remoção de antibióticos, bactérias e genes de resistência a antimicrobianos, a ideia é replicar a tecnologia não só em estações de tratamento de esgoto, como em hospitais e na agroindústria.

 

Evitando a disseminação de superbactérias

Preocupação. “Washington Post” listou algumas dicas de ações que ajudam a evitar a disseminação de superbactérias. Lavou as mãos? Antes de um exame, pergunte ao profissional de saúde (seja médico, enfermeiro ou qualquer outra especialidade) se ele lavou as mãos. Pode parecer embaraçoso, mas é importante. Vale também para hospitais, onde um em cada 25 pacientes adquire uma infecção. Parcimônia. A maior parte dos resfriados e outras infecções respiratórias são causadas por vírus – que não são combatidos por antibióticos. Então, não demande a prescrição desse tipo de medicamento. Tratamento correto. Quando a prescrição for de fato necessária, tome os remédios durante todo o tempo recomendado, mesmo que se sinta melhor antes. Uma dose inferior à indicada e o uso de restos no futuro são duas atitudes que contribuem para o aumento da resistência das bactérias.

 

Higiene pessoal. Lave as mãos com frequência e use sabonete sempre. Certifique-se de que há sempre sabonete no banheiro não só de sua casa, mas também dos lugares que mais frequenta. Produtos. Sabões bactericidas não têm eficácia comprovada. Porém, desinfetantes para as mãos têm. Use aqueles feitos à base de álcool quando não houver água e sabonete por perto. Nos alimentos. Procure carnes e outros alimentos cultivados sem o uso de antibióticos. Cerca de 80% dos antibióticos usados no país são destinados ao gado, contribuindo para a resistência bacteriana. Evitar seu consumo pode ajudar a mudar a postura do mercado. Atitudes no dia a dia. Tape totalmente a boca e o nariz quando tossir ou espirrar, mas sem usar as mãos. Mantenha superfícies limpas. Livre-se de qualquer coisa que tenha tido contato com carne crua ou mal cozida, peixes, mariscos e ovos. Bons hábitos. É possível aumentar a resistência de seu corpo praticando exercícios físicos, se alimentando bem e descansando o suficiente.

Fonte: O TEMPO 

Veja também: https://panoramafarmaceutico.com.br/2019/06/17/rios-do-mundo-contaminando-com-antibioticos/

Fonte: panoramafarmaceutico.com.br/2019/06/17/antibioticos-novos-tipos-desse-medicamento-precisam-ser-criados